Cultura organizacional, liderança e ego – Parte I

Nas minhas experiências profissionais tenho percebido uma sutil relação entre cultura organizacional, liderança e ego. A liderança exerce um papel primordial na formação da cultura organizacional, logo a forma como o líder pensa, fala, escuta e age afeta diretamente a empresa. A questão do ego vale para todas as pessoas, porém no caso do líder ela assume uma consequência mais grave. Se os lideres são egocêntricos a cultura organizacional será egocêntrica. O ego é uma espécie de corda que nos une ao mundo, se estiver muito frouxa ou muito tensa inevitavelmente causará problemas. Vivemos todos os dias esta experiência seja na coragem para enfrentar problemas e inovar, seja na insegurança que paralisa ou na arrogância que humilha. Existem vários momentos em que o ego pode se manisfetar de forma favorável ou desfavorável, seja em uma reunião diária, review, retrospectiva, ou reunião de planejamento. As perdas podem ser consideráveis, de relacionamentos e influência a clientes. As notícias e pesquisas já provaram que as perdas são astronômicas, porém sempre achamos que nunca viveremos tal insensatez. Como uma doença silenciosa o desequilíbrio do ego compromete de forma significativa nosso desempenho. O ego é uma espécie de radical livre, na dose certa ele ajuda, mantém a confiança, mas sem controle ele destrói as células boas. Neutralidade não é atributo seu. As empresas se preocupam em atrair pessoas talentosas e se esquecem desta contra-partida. Para que as idéias que as pessoas trazem sejam bem vindas, devemos promover debates sem as travas dos conflitos, permitir que a honestidade seja a esteira de modos inovadores de pensar, e não apenas matéria-prima de piadas ou frustrações durante o café. Normalmente caimos na armadilha da falta de equilibrio, que transforma nossas qualidades não no seu oposto mas em falsos similares, por exemplo, não conseguimos diferenciar o dedicado do inflexível, o franco do intimidador, o otimista daquele que rejeita a realidade. Entender o ego exige uma reflexão profunda, auto-conhecimento e melhoria na comunicação com os outros. Podemos observar alguns sinais que nos alertam sobre a criticidade da situação, quando somos excessivamente comparativos, quando passamos a defender nossa imagem e não idéias, quando nos sentimos superiores aos demais, quando buscamos aceitação abrindo mão da autenticidade.
Exceder-se nas comparações
Na comparação mora o espírito do capitalismo. Não devemos deixar de nos lançar a um desafio, sob risco de não inovarmos. Porém existe uma linha tênue que se ultrapassada pode nos levar a um desempenho sofrível. O excesso de comparação é sinal de insegurança, um passo para a estagnação. Outros estragos causados pela competição exacerbada são: perda de eficiência, divulgação interna de informação incorreta ou incompleta, estabelecimento de metas inalcançáveis, inércia quando o desempenho do outro é mais baixo, transformação de colegas em rivais. A comparação motiva muito, mas não serve de bússola.
Defender a própria imagem e não idéias
Defender uma idéia é coisa muito comum, se conseguir passar pelo crivo de um exame minucioso merece ser levada adiante. Torna-se um problema quando deixamos a idéia de lado e buscamos justificá-la tomando por base a falha alheia. A sociedade nos pressiona para sermos perfeitos, sendo a perfeição diretamente proporcional a visibilidade que se tem. Em função disso cometemos muitas atrocidades para proteger nossas ilusões. A força motriz é o medo: de não ser capaz, de perder o que se tem, de perder prestígio, de encarar a mudança. Esquecemos que nosso conhecimento será sempre limitado e que as melhores idéias são fruto de debates colaborativos. Se trocarmos idéias persuasivas pela imposição, teremos um apoio aparente e não uma mudança real. Um passo para as discussões banais. A falta de transparência nasce deste péssimo hábito, passamos a fabricar versões da realidade em larga escala, seja exagerando, seja abrandando, seja manipulando. Os filtros passam a substituir a interpretação pessoal dos fatos. Existem muitas paredes invisiveis numa empresa, é necessário estimular as pessoas a falar e ouvir umas as outras, trocar informações, ou estaremos condenados a viver em feldos.
Sentir-se superior aos demais
Einstein dizia: “Devemos ter cuidado para não tornar o brilhantismo nosso deus, ele tem músculos poderosos, mas não pode liderar, apenas servir”. Quando nos sentimos superiores aos demais a vítima é a sabedoria coletiva. Em “A sabedoria das multidões” James Surowieciki cita diversas pesquisas onde a inteligência coletiva supera a individual. A verdade é que trabalhando em equipe conseguimos resolver grande parte dos problemas e inovar. A arrogância nos torna menos informados, incentiva a tolerância compulsória, mata o interesse genuíno, e as idéias e problemas acabam ficando no limbo das conversas de corredor. Embora pessoas acima da média gerem idéias fantásticas, a vasta maioria da idéias nascem no grupo, que aliás viabiliza a execução de todas elas. O excesso de conhecimento pode trazer excesso de confiança, que causa a interrupção do processo de aprendizado e melhoria contínua. Lamentavelmente a colaboração não é praticada na mesma proporção em que é ostentada. A sociedade preza talentos e conquistas individuais e não capacidade coletiva, deve haver um delicado equilíbrio entre as duas abordagens, lembre-se de que o número de sinapses que nosso cérebro produz é limitado, em equipe não sofremos esta limitação, embora a mensagem do gênio solitário imponha-se com frequência. Seja por conhecimento ou poder, perceber as coisas por um ponto de vista auto-referente, é um convite para as piores decisões. Trabalhar com pessoas e não apesar delas é o segredo do sucesso.
Buscar aceitação abrindo mão da autenticidade
Quando a organização não estimula as pessoas a dizer o que pensam, correm um sério risco de criar uma cultura fraca. Isso significa que passam a não compartilhar idéias em reuniões, temem o poder hierárquico, e não expressam sua opinião para não serem impopulares. Meio caminho andado para exterminar a diversidade de pensamento. A expressão de idéias fica comprometida se você troca autenticidade e autoconfiança por aprovação. Cuidado, não se deve confundir construção de bons relacionamentos com subserviência ou bajulação.
Será possível construirmos uma cultura ágil e colaborativa ou uma liderança servidora sendo vítimas das armadilhas do ego? Se o ego é uma espécie de radical livre, para combater o seu excesso devemos produzir antioxidantes. Veremos como produzí-los no próximo artigo.
Bibliografia:
As paixões do ego – Humberto Marioti
Business Think – Dave Marcum, Steve Smith
O fator ego – Dave Marcum, Steve Smith
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